A desaceleração econômica e a queda
dos preços das commodities devem anular parte dos ganhos provocados pelo dólar forte nas exportações.
Apesar de a moeda americana, que acumula uma valorização de 36% desde agosto, tornar mais competitivos os produtos
nacionais no exterior e turbinar as receitas em reais, os exportadores dizem que a retração provocada pela crise
deve reduzir a demanda, com reflexo também sobre os preços.
As previsões variam, mas a maior parte dos analistas prevê queda no saldo da balança comercial
(diferença entre exportações e importações) dos US$ 25 bilhões esperados para 2008,
para até US$ 5 bilhões em 2009. Os superávits recordes, que ajudaram a elevar as reservas do país
nos últimos anos, não devem mais se repetir. Para o vice-presidente da Associação
de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, não “será surpresa”
se a balança registrar déficit no próximo ano.
“Com as economias dos EUA, da Europa e do Japão
em recessão, a tendência é que os importadores comprem menos, com reflexo também nos preços
dos produtos”, diz. No caso das commodities, os preços já caíram 25% em média
nesse ano. Uma simulação da AEB com uma cesta de 15 commodities, como soja, milho, açúcar, petróleo,
cobre, alumínio e níquel, demonstrou uma perda de US$ 9,5 bilhões em função da queda das
cotações. “Estamos falando apenas de preço, sem contar a redução do ritmo de encomendas”,
diz Castro.
“Se estendermos esse raciocínio para toda a pauta de commodities, estamos falando de uma redução
de US$ 32,5 bilhões”, diz. Algumas empresas, como as fabricantes de celulose Suzano e Votorantim Papel e Celulose
(VCP), já anunciaram que pretendem reduzir a produção por conta da diminuição da demanda
global e a tendência de queda de preços. No caso dos produtos manufaturados, o benefício do câmbio
vai depender de dois fatores, segundo o coordenador do departamento econômico da Federação das Indústrias
do Paraná (Fiep), Maurílio Schmitt.
De um lado, o dólar forte encarece os preços
dos insumos importados, o que aumenta custos em alguns setores. De outro, os clientes no exterior tendem a pedir redução
de preços. Alguns setores já começaram a sentir os efeitos dessa pressão,
como o madeireiro e moveleiro. Responsável por 5,71% das exportações do Paraná, a indústria
da madeira não está fechando negócios, de acordo com o o vice-presidente da Associação
Brasileira da Indústria da Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), Juliano Vieira de Araújo. “Além
da forte oscilação do câmbio, o comprador lá fora está exigindo descontos no preço
para compensar o câmbio”, diz.
O aumento de preços de insumos importados ou cotados em dólar – como vernizes e tintas –
e a recessão nos EUA jogaram um balde de água fria no setor de móveis, segundo o presidente da Abimóvel,
que reúne o setor, José Luiz Dias Fernandez. “A subida rápida do dólar é mais prejudicial
do que benéfica. O comprador do nosso produto sabe que o câmbio nos favorece e negocia redução
de preço em troca de manutenção de volumes”, diz. Mesmo com o real desvalorizado,
o setor revisou de 5% para 2,5% a projeção de crescimento das exportações para 2008 em relação
ao ano passado, quando atingiram US$ 1,1 bilhão. Embora tenha diminuído sua participação de 52%
para 30% no total exportado pelo Brasil, os EUA ainda são o maior comprador isolado.
“A receita agora é diversificar mercado e reduzir
a dependência dos americanos, que devem comprar menos”, afirma. Em um cenário
de turbulência, um ponto a favor das empresas brasileiras é justamente a diversificação de destinos
de exportação nos últimos anos. No caso do Paraná, por exemplo, a China superou a Argentina e
passou a ocupar o primeiro lugar na corrente de comércio – soma das exportações e das importações
–, com US$ 2,5 bilhões de janeiro a setembro. A economia chinesa deve ser menos afetada pela crise internacional
e manter o crescimento, ainda que em um ritmo menor.
contração do crédito para exportação,
ainda que temporária, também deve afetar o ritmo de venda externas, com reflexo sobretudo no primeiro trimestre
de 2009. De acordo com o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José
Augusto de Castro, as empresas ainda aguardam medidas mais agressivas do governo federal, que prometeu usar US$ 20 bilhões
– cerca de 10% da reservas – para financiar exportações.
Segundo o Banco Central, a contratação de
operações de Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC) – que serve para financiar a produção
que será exportada – caiu à metade nos primeiros dias de outubro. A média diária foi de
US$ 116 milhões em outubro, até o dia 10, bem abaixo dos US$ 238 milhões de setembro. Na sexta-feira,
o Banco Central anunciou para amanhã um leilão que vai oferecer US$ 2 bilhões para financiamento das
exportações.
Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da Klabin, Sergio Alfano, outro problema
é o aumento expressivo do custo dessas linhas. “Deixamos temporariamente de ir a esse mercado por conta do aumento
das taxas”, afirma. Por conta da redução da oferta de crédito, a General Motors do Brasil anunciou
uma redução de pouco mais de 10% nas exportações nesse ano – dos 90 mil veículos
previstos inicialmente para 80 mil.
A escassez de linhas é reflexo da crise financeira
internacional, que fez os bancos estrangeiros cortarem linhas de financiamento a instituições brasileiras. A
diminuição levou os bancos a serem mais conservadores na concessão de financiamentos a exportadores.
Fonte: Gazeta do Povo